Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo Centro de Formação de Recursos Humanos para o SUS/SP “Dr. Antônio Guilherme de Souza” Instituto Butantan Ectoparasitos associados a aves de sub-bosque em diferentes graus de urbanização Jessica Borges São Paulo 2019 Jessica Borges Ectoparasitos associados a aves de sub-bosque em diferentes graus de urbanização Monografia de Conclusão do Curso de Especialização Animais de Interesse em Saúde: Biologia Animal do Instituto Butantan, sob orientação de Erika Hingst-Zaher. São Paulo 2019 Dados internacionais de catalogação-na-publicação Ficha catalográfica elaborada pelo aluno a partir de modelo desenvolvido pela Biblioteca do Instituto Butantan Agradecimentos Quero agradecer ao Diego Garcia Ramirez pela colaboração na identificação dos carrapatos. Agradeço á Andressa Sales Garcia e Clarissa de Oliveira Santos Karlla Barboza por toda a ajuda em campo. Agradeço também a minha orientadora Erika Hingst-Zaher pela oportunidade de realizar este projeto no Museu Biológico. A Giulyana Althman Benedicto e Carlos Ernesto Candia-Gallardo por toda a ajuda e paciência. Agradeço ao CEFOR por financiar parte deste projeto e ao Instituto Butantan, por ceder o espaço para que este projeto fosse possível. Agradeço ao Laboratório Especial de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan – LECZ por me conceder o espaço e pela ajuda na identificação dos ácaros. Agradeço aos colegas do Museu Biológico/Laboratório do Museu biológico e ao Instituto Butantan pelo apoio, risadas e muitas confraternizações, em especial a Camila Camargo Diasas, por todas as conversas, Gabriel Banov Evora por todas as reflexões e Leonardo Murari, pelos conselhos e apoio. RESUMO Em todo o mundo podemos encontrar uma grande variedade de ectoparasitos associados a aves. Entre os grupos mais comuns de ectoparasitos estão os carrapatos, piolhos e ácaros plumícolas. A diversidade de ectoparasitos pode ser influenciada por uma série de fatores, classificados como biológicos (suscetibilidade), físicos (temperatura, umidade) e comportamentais (sociais e reprodutivos). As taxas de infestação por ectoparasitos podem variar e se modificar de acordo com as condições ambientais. O presente trabalho teve como objetivo analisar a prevalência de ectoparasitos em aves capturadas em duas áreas com diferentes graus de urbanização, o parque do Instituto Butantan e o Parque Estadual Serra da Cantareira – Núcleo Engordador, bem como fazer inferências sobre a relação desses resultados com a sazonalidade e estação reprodutiva das aves capturadas. As aves foram capturadas com redes ornitológicas nos períodos matutino e vespertino. Foram capturados 65 indivíduos pertencentes a 23 espécies de aves, sendo a Ordem Passeriformes a mais representativa com 22 espécies e um indivíduo da Ordem Apodiformes (Thalurania glaucops). Foram coletados e identificados: um indivíduo da classe Insecta, malófagos da Ordem Phthiraptera, e três grupos da sub-classe Acari - os trombiculídeos (Prostigmata), ácaros plumícolas (Sarcoptiformes) e carrapatos (Ixodida). A maior prevalência entre as espécies de aves capturadas foi de 64,70% no sabiá-laranjeira, Turdus rufiventris, espécie com maior número de indivíduos capturados, sendo 16 desses indivíduos parasitados por pelo menos um grupo de ectoparasito. O período de inverno teve 77,7% de prevalência, enquanto na Primavera a prevalência foi de 60%. A prevalência de ectoparasitos foi maior no Parque Cantareira (76,9%), do que no Instituto Butantan (72%). Palavras-chave: ectoparasitos, aves, sazonalidade, aves urbanas ABSTRACT Throughout the world we can find a wide variety of ectoparasites associated with birds. Among the most common groups of ectoparasites are ticks, lice and feather mites. The diversity of ectoparasites can be influenced by a series of factors, classified as biological (susceptibility), physical (temperature, humidity) and behavioral (social and reproductive). Rates of ectoparasite infestations may vary and may change according to environmental conditions. The present study had as objective to analyze the prevalence of ectoparasites in birds captured in two areas with different degrees of urbanization, the Butantan Institute park and Serra da Cantareira State Park - Fattening Nucleus, as well as to make inferences about the relation of these results with the seasonality and reproductive season of the captured birds. The birds were captured with ornithological nets in the morning and afternoon periods. Sixty-five individuals belonging to 23 species of birds were captured, with the Passeriformes Order being the most representative with 22 species and one individual of the Order Apodiformes (Thalurania glaucops). Were collected and identified: one from the Insecta class, maltophages from the Order Phthiraptera, and three groups from the Acari subclass - thrombiculidae (Prostigmata), feather mites (Sarcoptiformes) and ticks (Ixodida). The highest prevalence among the species of birds captured was 64.70% in the Rufous Bellied-Thrush, Turdus rufiventris, a species with the highest number of captured individuals, of which 16 were parasitized by at least one ectoparasite group. The winter period had a prevalence of 77.7%, while in the spring the prevalence was 60%. In the Cantareira Park the birds had the highest prevalence (76.9%) of ectoparasites, while in the Butantan Institute the prevalence was lower (72%). Key-words: ectoparasitism, birds, season, urban birds 1 INTRODUÇÃO Em todo o mundo, podemos encontrar um grande número de ectoparasitos em aves, os quais possuem uma grande diversidade. Esses parasitos podem ser ocasionais, como os carrapatos, ou parasitas permanentes, os quais tem todo seu ciclo de vida associado ao seu hospedeiro como no caso dos ácaros de penas e malófagos. Estes últimos estão entre os ectoparasitos mais comuns encontrados em aves, visto que se trata de ectoparasitos obrigatórios (MARSHALL, 1981). Além deles, também são encontrados nas aves piolhos, carrapatos e pulgas (ARZUA E VALIM, 2010). Encontram-se descritas atualmente mais de 2.500 espécies de ácaros plumícolas. Esse grupo de ectoparasitos habita diversas partes diferentes de seus hospedeiros, além de estarem associados também a ninhos (PROCTOR E OWENS, 2000). As penas fornecem um habitat propício para os ácaros, que podem ser encontrados tanto na superfície das penas como na raque e no cálamo (DUBININ, 1951). Os carrapatos pertencem à Arachnida, e são separados em duas familias: Ixodidae (os carrapatos duros) e Argasidae (carrapatos moles). Os primeiros são ectoparasitos permanentes e hematófagos, e o grupo principal na transmissão de vetores de agentes infecciosos como protozoários, vírus e bactérias, incluindo as riquétsias (CUPP, 1991). Os estágios de desenvolvimento dos carrapatos incluem ovo, larva, ninfa e fase adulta, sendo os estágios imaturos os mais frequentemente encontrados nas aves. São mais comumente encontrados em aves da Ordem Passeriformes, embora tenha sido registrado em não-Passeriformes (BARROS-BATTESTI et al., 2006). A Ordem Phiraptera compreende o grupo de ectoparasitos obrigatórios de aves e mamíferos, e encontra-se dividida em quatro sub-ordens: os Anopluras (piolhos sugadores) e os Ryncophthirina, Ischnocera e Amblycerae (piolhos mastigadores). Além disso, Ischnocera e Amblycera são os grupos mais comumente encontrados nas aves, sendo o primeiro morfologicamente adaptados para se locomover entre as penas. As espécies pertencentes ao grupo Amblycera são mais ágeis, e encontradas tanto nas penas quanto na pele de seus hospedeiros. (ASH, 1960; MARSHALL, 1981). As penas das aves constituem um ambiente complexo que possibilita a infestação de inúmeras espécies de ectoparasitos. Todas essas variedades de ectoparasitos se encontram também na pele, passagens respiratórias e ninhos, podendo tornar a ave suscetível a infecções secundárias. (PHILIPS, 1990). A diversidade de ectoparasitos pode ser influenciada por uma série de fatores, sendo eles biológicos, como hospedeiros desnutridos, que possuem maior susceptibilidade à infestação por ectoparasitos. Além disso, indivíduos com o sistema imunológico afetado, por exemplo, com níveis alterados de hormônios de estresse (Heeb et al., 2000a, Gershwin et al., 1985) também podem apresentar maior número de ectoparasitas. Fatores comportamentais (sociais e reprodutivos) de espécies de aves hospedeiras, tais como espécies que forrageiam próximas ou no chão, pois os carrapatos, por exemplo, procuram novos hospedeiros para continuar seu ciclo de vida no chão, sendo assim, este fator também pode influenciar nas taxas de parasitismo. A época reprodutiva das aves no Brasil se dá entre os meses de setembro e janeiro (SICK, 1997). Durante a estação reprodutiva há um aumento na interação entre hospedeiros da mesma espécie, podendo aumentar a transmissão de ectoparasitos, principalmente no caso daqueles que dependem de contato direto com o hospedeiro para transmissão, como piolhos mastigadores e ácaros de penas. Fatores físicos, como temperatura e pluviosidade, também têm sido correlacionados com a abundância, riqueza e prevalência de espécies de ectoparasitos em aves (LINARDI et al., 1985). Heeb et al., (2000b) testaram a umidade em ninhos na prevalência de piolhos e chegaram a conclusão de que ectoparasitos se reproduzem melhor em ambientes com alta umidade. O parasitismo pode reduzir os recursos direcionados aos processos fisiológicos dos hospedeiros. Pode, ainda, influenciar na dinâmica temporal e espacial das populações hospedeiras e estrutura das comunidades, já que o indivíduo infestado tem uma aptidão reduzida, tornando-se mais suscetível à predação. Além disso, os ectoparasitos podem alterar o sucesso reprodutivo, podendo retardar o crescimento dos filhotes e diminuir o tamanho da ninhada (MOYER et al., 2002). As taxas de infestação por carrapatos podem variar e se modificar de acordo com condições ambientais. Além disso, modificações antrópicas relacionadas à urbanização podem aumentar o risco de infestação de ectoparasitos em aves, com potencial transmissão por animais domésticos. Sendo assim, ações antrópicas podem determinar as relações entre parasitos e seus hospedeiros. Consequentemente, hospedeiros e parasitos podem servir como bioindicadores da qualidade ambiental (OSTFELD; KEESING, 2000). A avifauna que reside nessas áreas urbanas está exposta a um novo conjunto de tensões em relação às áreas florestadas. Esses estresses, podem impor restrições substanciais à biologia desses animais, de tal forma que eles podem ser forçados a modificar suas estratégias comportamentais e de história natural para serem bem-sucedidos. O estresse pode ser causado por poluição, qualidade da dieta, ectoparasitos e endoparasitos, causando, assim, diminuição na capacidade de sobrevivência (BECKER, 2003). Oppliger et al. (1994), demonstraram que em aves como o Parus major o peso dos filhotes parasitados é inferior ao dos filhotes não parasitados, fazendo com que esses filhotes muitas vezes não alcancem a fase adulta. Pouca atenção é dada aos ectoparasitos de aves, sendo escassos os estudos com esses grupos no Brasil (ARZUA & VALIM, 2010). A saúde das aves e a biologia de seus ectoparasitos requer atenção, pois ectoparasitos podem ser vetores de patógenos para as aves e estas, podem transmitir para os seres humanos à medida que alterações ambientais como perda de habitat para os animais podem causar maior contato com os humanos e aumenta o risco de infecções. (WEISS & MICHAEL, 2014, MARINI, 1996). Como exemplo, ácaros hematófagos podem transmitir vírus e doenças causadas por protozoários (KETTLE, 1995). Entre as doenças infecciosas que os carrapatos podem transmitir para os seres humanos, destaca-se a febre maculosa, doença de notificação obrigatória (SANGIONI et al., 2005). As mudanças no ambiente, sejam elas naturais ou não, afetam de maneira geralmente negativa os sistemas parasito-hospedeiro, pois as taxas de infestações por ectoparasitos variam de acordo com as condições ambientais. Portanto, o parasitismo pode contribuir para a estrutura, diversidade, conservação, função e saúde da biodiversidade urbana (DELGADO-V e FRENCH, 2012). O conceito de One Health trata da união entre a saúde humana, a saúde animal e o meio ambiente. A relação cada vez mais próxima principalmente entre humanos e animais selvagens, causada principalmente por perda de habitat, obrigando os animais a habitar as áreas urbanas, pode ter efeitos negativos, como a iminência de doenças zoonóticas, sendo cada vez mais necessário aplicar o conceito de One Health. 2 Objetivo O presente trabalho tem por objetivo determinar e comparar taxas de prevalência de ectoparasitos em aves em uma mancha florestal imersa na malha urbana da cidade de São Paulo (Instituto Butantan) e em uma área florestal bem preservada (Parque Estadual Serra da Cantareira - Núcleo Engordador), ao longo de duas estações do ano. 3 MATERIAIS E MÉTODOS Áreas de estudo O presente estudo foi realizado no Parque do Instituto Butantan e Parque Estadual da Cantareira - Núcleo Engordador, ambos localizados em São Paulo. Foram coletados dados em duas estações do ano; Inverno e Primavera de 2018. Parque do Instituto Butantan O parque do Instituto Butantan (IBu) está localizado no bairro do Butantã na Zona Oeste do município de São Paulo, entre os rios Jaguaré e Pirajussara (23°34'0"S, 46°43'17"W). Possui uma área total de 70,9140 ha e destes, 80 ha são de áreas florestadas (VENTURA & NOBRE, 2015), enquanto as demais áreas são ajardinadas ou abrigam construções. Possui uma rica avifauna, sendo encontradas aproximadamente 160 espécies (BENEDICTO, et al., 2017). As áreas florestadas encontram-se em processo de regeneração secundária, predominando nas áreas de vegetação natural matas estacionais semideciduais, com enclaves de cerrado. As espécies arbóreas incluem as nativas cedro-rosa (Cedrella fissilis), pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), tapiá (Crateva tapia), catinguá-branco (Trichilha clausenii), e as exóticas, palmeira-australiana (Archontophoenix spp) e o eucalipto (Eucalyptus spp) (Amaral 2015). Parque Estadual Serra da Cantareira - Núcleo Engordador O Parque Estadual Serra da Cantareira (PEC) está localizado no Bairro Jardim Cachoeira na Zona Norte do município de São Paulo (23°24'5"S 46°35'24"O). Trata-se de um maciço florestal remanescente de Mata Atlântica com área total de 7.900 hectares. Possui espécies vegetais que incluem algumas espécies ameaçadas de extinção, como a imbuia (Ocotea porosa), a canela-preta (Ocotea catharinensis) e a canela sassafrás (Ocotea odorífera). O Parque Estadual Serra da Cantareira é considerado uma importante área de conservação para espécies da Mata Atlântica, com registros de mais de 400 espécies de aves (BENCKE et al., 2006). Captura das espécies e coleta de ectoparasitos em campo Para a captura das aves foram utilizadas redes ornitológicas de 12 metros de extensão, por 3 metros de altura. As redes foram abertas ao amanhecer e fechadas no fim da tarde, sendo vistoriadas a cada 30 minutos foram 4 dias no Parque Estadual Serra da Cantareira e esforço de 4320 h.m² rede e 7 dias no Parque do Instituto Butantan com esforço amostral de 7560 h.m² rede. Os dados foram anotados em planilhas previamente elaboradas, contendo identificação no nível específico, idade, sexo e peso das aves, e características como placa de incubação e limite de muda (Anexo 1). Dados de condições climáticas (umidade relativa, temperatura e pluviosidade) foram consultados no portal da estação meteorológica da USP (IAG USP). Além de uma planilha para a anotação dos dados dos ectoparasitos encontrados contendo local onde o ectoparasito foi encontrado na ave e grupo taxonômico (Anexo 2). Os animais capturados foram acondicionados em sacos de pano individuais e transportados para uma base de campo, sendo coletado os ectoparasitos, com a ajuda de uma lupa e uma pinça, lavados após o uso em cada indivíduo, evitando, assim, contaminação. Foi utilizado o método de catação manual, buscando por esses ectoparasitas por um tempo padronizado, fazendo um exame detalhado, começando pelos olhos, cabeça, ouvido, pescoço, peito, penas das asas (esquerda e direita) e cauda. Análise do grau de infestação e do tipo de ectoparasitas prevalentes Os ectoparasitos foram identificados até o menor nível taxonômico possível, chegando no mínimo ao nível de Família. Os ácaros plumícolas e piolhos foram identificados após a clarificação, método que consiste em colocar os ectoparasitos em placas contendo ácido láctico, seguindo-se secagem de 12 horas em estufa. Após a clarificação, as amostras foram separadas e cada indivíduo foi fixado em uma lâmina separadamente contendo o fixador Hoyer (Walter e Krantz 2009). Os carrapatos foram identificados com a ajuda de Lupa e chaves de identificação (Martins et al. 2010). As lâminas com os ácaros plumícolas e os carrapatos em meio líquido já identificados foram tombados na coleção zoológica do Instituto Butantan – LECZ. Para medir o grau de infestação foi criado uma escala de 0 a 5, sendo 0- nulo (sem presença ou sinais de ectoparasitos), 2 Sinais (marca de ectoparasitos, mas sem ectoparasitos), 3 - Baixo (até 10 indivíduos de ectoparasitos) 4- Médio (10 a 20 indivíduos de ectoparasitos) e 5- Alto (Mais de 20 indivíduos de ectoparasitos), seguindo Koop & Clayton in Licarião (2017). Os ectoparasitos foram coletados e acondicionados em tubos contendo álcool 100% separados por hospedeiro. A prevalência foi calculada utilizando total de aves por total de aves infestada. Este trabalho está dentro da normatização do comitê de ética do Instituto Butantan (CEUAIB) sob o número de protocolo CEUAIB N°5816060718, do IBAMA/SISBIO sob o número de protocolo 64061-3 e do CEMAVE - Centro de Pesquisa para Conservação de Aves Silvestres sob o número de protocolo 4337/1. 4 RESULTADOS Foram capturados 65 indivíduos pertencentes a 23 espécies de aves (Tabela 1), sendo a Ordem Passeriformes a mais representativa com 22 espécies e uma da Ordem Apodiformes (Thalurania glaucopis). Tabela 1 – Número de indivíduos capturados nas duas áreas do estudo Foram coletados e identificados quatro grupos de ectoparasitos nas aves: malófagos, da Ordem Phthiraptera pertencente à classe Insecta; trombiculídeos (Prostigmata); ácaros plumícolas (Sarcoptiformes); e carrapatos (Ixodida). Os três últimos pertencentes à subclasse Acari da classe Arachnidae. Comparando-se os diferentes grupos de ectoparasitos entre as áreas de estudo, ácaros plumícolas tiveram prevalência de 72,7%, na área do Instituto Butantan e 79% no Núcleo Engordar do PEC(Gráfico 1), durante o inverno. Para o grupo dos carrapatos, a prevalência continuou menor no IBu (9%) do que no PEC (11,7%), na mesma estação. O grupo dos piolhos foi encontrado apenas nas aves do IBu (100%). Gráfico 1 – Prevalência de ectoparasitos nas duas áreas estudadas no Inverno Durante a primavera, a prevalência entre as duas áreas se inverteu, com os ectoparasitos das aves do PEC apresentando menor prevalência em relação ao IBu e nenhum piolho encontrado nas aves de ambas as áreas. Ácaros plumícolas tiveram prevalência de 60% no PEC e 71,4% no IBu. Os carrapatos tiveram prevalência de 20% no PEC e 42,8% no IBu (Gráfico 2). Gráfico 2 – Prevalência de ectoparasitos nas duas áreas estudadas na Primavera Ao comparar os resultados sazonalmente, entre os gráficos 1 e 2, nota-se a redução na prevalência de ácaros plumícolas na primavera, um pouco mais acentuada na área do PEC (79% no inverno e 60% na primavera), e um aumento na prevalência de carrapatos mais acentuado na área do IBu (9% no inverno e 42,8% na primavera). Entre os diferentes grupos de ectoparasitos, o Instituto Butantan teve maior prevalência de ácaros plumícolas com 72%, a segunda maior prevalência foi de carrapatos com 28% sendo a prevalência de piolhos 100% (Gráfico 3). Na Cantareira maior prevalência foi de ácaros plumícolas (76,9%), seguido por carrapatos (12,8%). Não foram encontrados piolhos nas aves capturadas na Cantareira (Gráfico 4). Gráfico 3 – Prevalência de ectoparasitos no Instituto Butantan Gráfico 4 – Prevalência de ectoparasitos encontrados na Cantareira O sabiá-una (Turdus flavipes), espécie capturada apenas no Instituto Butantan e representada por um único indivíduo, foi infestada por malófagos, sendo três piolhos adulto da Família Philopteridae (Figura 1). Além disso, foram encontrados ovos de piolhos em indivíduos de Turdus rufiventris, Dysithamnus mentalis e Thalurania glaucopis. Figura 1- Piolho da Família Philopteridae, encontrado em um indivíduo de sabiá-una (Turdus flavipes), no Parque do Instituto Butantan. Na maioria das espécies de aves capturadas foram encontrados ácaros plumícolas, exceto por quatro indivíduos de Turdus rufiventris capturados no Parque do IBu, por um indivíduo das espécies Trichothraupis melanops e Myiothlypis leucoblephara e dois indivíduos da corruíra Troglodytes musculus. Foram encontrados ácaros de pena nas penas das asas (Figura 2), penas de contorno da cabeça, ao redor dos canais auriculares e dos olhos. Em um indivíduo de Turdus rufiventris foram encontrados ácaros da Família Trombiculidae parasitando o ouvido (Figura 3). Figura 2 – Disposição de ácaros plumícolas nas penas das asas de Pyriglena leucoptera. Figura 3– Indivíduo de Turdus rufiventris parasitado por ácaros da família Trombiculidae. Onze indivíduos de cinco espécies (3,2% do total de indivíduos capturados) tiveram grau de infestação para carrapatos “3 – Baixa infestação (Até 10 indivíduos de ectoparasitos) “. São elas: Turdus rufiventris, Turdus albicollis, Dysithamnus mentalis, Thamnophilus caerulescens, Trichothraupis melanops. E dois indivíduos de duas espécies diferentes foram encontrados com “5 – Alto grau de infestação (mais de 20 indivíduos de ectoparasitos) “ para carrapatos, sendo elas Turdus rufiventris e Saltator similis. Apenas larvas (n=13) do gênero Amblyomma e ninfas (n=8) (Figura 4) da espécie Amblyomma aureolatum (Gráfico 5 e 6) foram encontrados nas aves capturadas, nas duas áreas amostradas. Larvas não foram identificadas até nível de espécie por não ser possível a sua identificação, por falta de chaves taxonômicas. Gráfico 5 – Número de larvas e ninfas de carrapato nas duas áreas estudadas no inverno. Gráfico 6 – Número de larvas e ninfas de carrapato nas duas áreas estudadas na Primavera. Figura 4 – Ninfas e larvas de carrapatos encontrados em Turdus rufiventris. 5 DISCUSSÃO Neste trabalho, foi observada maior prevalência de ectoparasitos na espécie Turdus rufiventris com 64,7%, espécie com maior número de capturas (n=21), nas áreas urbanas do estudo, com alguns indivíduos da espécie nas áreas florestadas. Os resultados aqui apresentados apontam o maior número de aves infestadas por ectoparasitos no Inverno (n= 45) do que na primavera (n=16). Diferente do trabalho de Enout (2009), foi encontrado as maiores prevalências nas estacoes chuvosas, enquanto mais baixas nas estacoes secas. Ácaros plumícolas tiveram prevalência de 72,7% no Inverno no Instituto Butantan, com baixa diferença na prevalência na primavera 71,4%. Nos carrapatos, a prevalência no Inverno foi baixa com 9%, enquanto que para a primavera 42,8%. Já na Cantareira, ácaros plumícolas no Inverno tiveram prevalência de 72,7%, enquanto na primavera 71,4%. Para os carrapatos foi observada prevalência de 11,7% no Inverno e 20% no verão. Este aumento de carrapatos na Primavera pode ser explicado pelo fato de que carrapatos são sensíveis a dessecação (BALASHOV, 1972) e, portanto, necessitam de ambiente úmido para sua sobrevivência. Neste trabalho, foram encontrados maior taxa de larvas e ninfas de carrapatos na estação Primavera. Segundo Toledo et al. (2008) larvas e ninfas se mostram presentes o ano inteiro, porém, são mais abundantes entre outubro e dezembro meses com temperatura elevada e agosto, com o pico do inverno. Em relação aos ácaros de pena, a alta taxa de prevalência nas duas áreas do estudo, sendo 72% para o Instituto Butantan e 76,9% para a Cantareira pode ser explicada pelo fato de que estes ácaros estão entre os mais comuns e numerosos ectoparasitos de aves (GAUD & ATYEO, 1996). Ademais, as diferentes espécies de ácaros plumícolas possuem especificidade com diferentes micro-habitats do corpo de seus hospedeiros. Em todas as 23 espécies de aves capturadas foram encontrados ácaros plumícolas em diferentes partes do corpo. Foi encontrado um maior número de espécies infestadas por carrapatos da espécie Amblyomma aureolatum no Parque do Instituto Butantan (n= 16). Isso pode ser explicado pelo aumento no contato de animais domésticos com animais silvestres, já que o parque possui uma área de visitação, na qual os visitantes trazem animais domésticos, além de alguns cachorros sem dono que circulam pela área, o que ajuda na dispersão desse grupo de ectoparasitos. Na Cantareira foram encontradas 5 espécies de aves infestadas por larvas e ninfas de carrapatos da espécie Amblyomma aureolatum. Os estágios dos carrapatos variam ao longo do ano, sendo os estágios imaturos predominantes no inverno, enquanto as fases adultas predominam no verão, corroborando com os resultados deste trabalho. Foram encontrados três indivíduos de piolho da Família Philopteridae em Turdus flavipes. Cunha Amaral et al. (2012) reportou em um estudo desenvolvido no Rio Grande do Sul que o gênero Turdus foi parasitado por esta família de piolhos, tendo encontrado maior infestação no verão. Neste estudo, por outro lado, os piolhos foram encontrados apenas no Inverno. As espécies Saltator similis (trinca-ferro), Turdus rufiventris (sabiá-laranjeira), Turdus albicollis (sabiá-coleira) e Disythamnus mentalis (choquinha-lisa) foram as mais infestadas por carrapatos. Um estudo similar realizado em um fragmento florestal no Extremo Oeste de São Paulo aponta uma das maiores taxas de infestação por carrapatos em Disythamnus mentalis (13,9%) (OGRZEWALSKA, 2009). Saltator similis é considerado uma das espécies de aves mais representativas em relação à infestação por carrapatos, sendo encontrado parasitado pelo Gênero Amblyomma em mais de cinco localidades, além de ter sido reportado com larvas e ninfas de Amblyomma aureolatum em um fragmento de Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro (ARZUA et al., 2005; LABRUNA et al.,2007; PACHECO et al., 2012). Foram encontrados nas aves capturadas apenas larvas (n=13) e ninfas (n=8) de carrapatos da espécie Amblyomma aureolatum, o que reforça a ideia de que os adultos de carrapatos apenas são encontrados em mamíferos e que suas formas imaturas são encontradas em aves (EVANS et al., 2000; ARZUA et al., 2003; VENZAL et al., 2003; PASCOLI, 2005; LABRUNA et al., 2007). Isso pode explicar também o baixo número de espécies de carrapatos, especialmente no parque do Instituto Butantan, onde a diversidade de espécies de mamíferos é baixa, com apenas 5 espécies registradas de pequenos mamíferos terrestres (GOMES et al., 2016). Além disso, este resultado também reforça a preferência do gênero Amblyomma por aves em seus estágios imaturos (ARZUA, 2007). Para Arzua et al. (2003) a espécie Amblyomma aureolatum foi a mais abundante com prevalência de 97,5% e a espécie Turdus rufiventris também foi a mais abundante nas coletas e a mais infestada. Amaral (2011) reportou que duas espécies da família Turdidae (Turdus rufiventris e Turdus amaurochalinus), apresentaram ao menos uma espécie de ácaro plumicola. Marini et al. (1996) também reporta que em todos os indivíduos de Turdus rufiventris capturados foram encontrados ácaros plumícolas. Moyer et al. (2002) testou o impacto da umidade sobre a sobrevivência e abundância de piolhos em aves, chegando a conclusão de que baixa umidade no ambiente reduz a abundância de piolhos. Além disso, espécies de aves que habitam ambientes mais áridos possuem menos piolhos do que aquelas que vivem em ambientes mais úmidos. Devido ao baixo numero de dias de campanha, serão necessários maior esforço amostral nas duas áreas estudadas. Além disso, nossos resultados mostram uma diferença entre as duas estações do ano amostradas, sendo assim, pretendemos comparar as outras duas estações do ano que ainda não foram amostradas, para termos um ciclo sazonal. Além disso, ampliar o esforço também nos dará uma dimensão maior sobre os motivos pelo quais não encontramos piolho nas espécies da Cantareira. 6 CONCLUSÃO Todas as 23 espécies de aves capturadas foram encontradas parasitadas com ácaros de penas. Das 23 espécies de aves, quatro tiveram maior prevalência de carrapatos: Turdus rufiventris, T. albicolis, Dysithaminus mentalis e Saltator similis. Turdus rufiventris foi a espécie com o maior número de ectoparasitas, com carrapatos, piolhos e ácaros de penas infestando esta espécie. A espécie de carrapato encontrada nas duas áreas do estudo foi Amblyomma aureolatum, uma das espécies de carrapato de importância em saúde pública, já que podem ser vetores de doenças zoonóticas como a Febre maculosa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, M.A. 1993 A vida das aves: Introdução à biologia e conservação. Belo Horizonte: Editora Líttera Maciel. 160p. ASJ, J. S. 1960 A study of the Mallophaga of birds with particular reference to their ecology. 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